LICENCIATURA CURTA EM CIÊNCIAS E HABILITAÇÕES:

ESTUDO DE UM CURSO DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES DA UERJ

Autores

Palavras-chave:

Ensino de Ciências, Formação de professores, Currículo, Licenciatura Curta

Resumo

Introdução

            A formação de professores representa os interesses de determinado contexto em relação a aspectos sociais, políticos e econômicos. Em relação à formação de professores para o ensino de ciências, um marco histórico foi a criação das licenciaturas curtas. No Brasil, desde o início do regime militar até 1978, foram criados aproximadamente 100 cursos de licenciatura curta em ciências. Em 1964, o Conselho Federal de Educação (CFE) orientou a criação das licenciaturas curtas enquanto um meio de formar mais professores em um menor período de tempo (Sucupira, 1964). Contudo, a adesão não foi relativamente significativa, seguindo-se a elaboração de mais respaldos para a concretização desses cursos. Somente em 1974, após a criação mais respaldos legislativos, com a Resolução nº 30/1974 do CFE, a licenciatura curta em ciências se torna obrigatórias em  relação às áreas de Biologia, Química, Física e Matemática (Brasil, 1974).

As licenciaturas curtas em Ciências foram pouco estudadas no Brasil, sendo importante ampliar a produção de conhecimento sobre o tema. O objeto de estudo foi um curso de licenciatura em ciências da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e suas habilitações  nas décadas de 1970 e 1980. O objetivo foi investigar a estrutura curricular das habilitações específicas do curso e compreender mudanças e continuidades, em prosseguimento à pesquisa realizada por Santos e Silva (2025). Esperava-se a ocorrência de mudanças no curso para atender às demandas educacionais da época.

 

Fundamentação teórica

A pesquisa se baseou em estudos de Nóvoa (1992, 1989) sobre a formação de professores; em Goodson (1997, 2012) sobre a construção sócio-histórica do currículo; e em Ayres (2006),  Lima-Tavares (2006) e Nascimento (2012) acerca das licenciaturas curtas no Brasil. Nóvoa (1992) aborda a formação de professores enquanto um tema que não deve ser dissociado da reflexão crítica, defendendo a sua construção autônoma e relacionando a fatores externos que influenciam as instituições de ensino (1989). Goodson (1997) trata do currículo como construção sócio-histórica, com finalidades e tradições disciplinares, reforçando a importância de uma “história de ação” (Goodson, 2012, p. 72), para a compreensão deste processo.

Nascimento (2012) discorre sobre a desqualificação da formação docente aligeirada em busca do atendimento a uma demanda externa às universidades. Ayres (2006) aponta que no período em que as licenciaturas curtas foram implementadas, problemas como a evasão escolar ainda eram recorrentes. Ainda, segundo ela, a desvalorização pedagógica como uma consequência da integração das diferentes áreas. Lima-Tavares (2006) indica resistência à implementação dos cursos  por parte da comunidade científica.

 

Metodologia

Foi realizada uma pesquisa qualitativa e documental, apresentando três fases: a pré-análise, em que foram selecionados os documentos a serem analisados de acordo com o objetivo da pesquisa; a exploração do material, com a seleção e classificação dos dados mais pertinentes ao que foi abordado; e a de tratamento dos dados obtidos (Gil, 2002).

            Foram levantados diversos documentos acerca do curso, como processos, resoluções, ementas, legislações, fluxogramas, atas de reunião e deliberações, percorrendo Núcleos de Documentação e  Memória, departamentos e setores da UERJ e em sítios eletrônicos. A principal fonte foi o Processo nº 1642/1976, com o  Relatório sobre criação do curso de licenciatura curta em ciências (UERJ, 1976), localizado no Departamento de Orientação e Supervisão Pedagógica.

            Os documentos foram organizados em arquivos digitais e foi realizada a transcrição de ementas das disciplinas do curso localizadas no Processo nº 1642/1976. Em relação aos procedimentos de análise, foi realizada a Análise de Livre Interpretação (ALI) (Anjos et al., 2019), com base nos referenciais teóricos e relacionando o conteúdo nos documentos ao contexto educacional da época.

 

Resultados e Discussão

            O curso de licenciatura em ciências da UERJ foi implementado a partir da Resolução nº 457/1976 (UERJ, 1976), sob orientação da Resolução nº 30/1974 do CFE (Brasil, 1974). Como outros cursos desta categoria, ele era dividido em dois ciclos: um ciclo comum, para uma formação polivalente com conhecimentos de Biologia, Física, Matemática, Química e Geologia, e um ciclo de habilitação em Biologia, Física, Química ou Matemática, facultativo após a conclusão do ciclo comum. A formação no ciclo comum permitia lecionar no 1º grau e com a habilitação o professor poderia atuar na área escolhida no 2º grau (Santos; Silva, 2025).

            O ciclo comum podia ser integralizado entre 4 e 6 períodos, com um total de 2055 horas (CH) e 116 créditos (UERJ, 1976). Disciplinas da área de educação eram oferecidas desde o primeiro período, abrangendo teoria e prática (Santos; Silva, 2025). Algumas disciplinas tinham abordagem interdisciplinar, como Seminário de Temas Integradores e Atividades em Laboratório e/ou Prática.  Na disciplina Reuniões de Desenvolvimento estava prevista discussão sobre o funcionamento do curso por  alunos e docentes.     

Em relação às habilitações, elas deveriam ser concluídas em, no mínimo, quatro períodos e, no máximo, seis. A habilitação em Biologia possuía um total de 1815 horas e 85 créditos; a de Matemática, 1920 horas e 120 créditos; a de Física, 1830 horas e 108 créditos; e a de Química, 1815 horas e 128 créditos. Algumas disciplinas, como: Prática de Ensino na Escola de 2º Grau III; Atividades em Laboratório e/ou Práticas; Reuniões de Desenvolvimento; Estrutura e Funcionamento do Ensino de 2º grau III; Psicologia da Educação X e XI; Projetos de Ação Pedagógica V e VI; Dinamização Curricular II; e Metodologia do Ensino de 2º grau II e III, faziam parte de diferentes habilitações, podendo haver variações nas ementas.

            A habilitação em Biologia reunia disciplinas específicas da área, como: Biologia Celular IV (CH: 75); Bioquímica X (CH: 90); Anatomia VIII (CH: 45); Zoologia VII (CH: 90), VIII (CH: 75), IX (CH: 75) e X (CH: 90); Botânica VII (CH: 90), VIII (CH: 75) e IX (CH: 90); Genética VI (CH: 75) e VII (CH: 75); Biofísica VII (CH: 75); Fisiologia XII (CH: 75); Ecologia III (CH: 75) e Geologia Geral IV (CH: 45).

Na habilitação em Matemática eram ofertadas as disciplinas: Álgebra I (CH: 60) e II (CH: 60); Álgebra Linear III (CH: 75); Cálculo Diferencial e Integral I (CH: 75) e II (CH: 75); Introdução ao Processamento de Dados (CH: 60); Geometria I (CH: 60), II (CH: 60), III (CH: 60) e IV (CH: 60); Análise Vetorial I (CH: 75); Cálculo Numérico I (CH: 60); Análise Matemática I (CH: 75) e II (CH: 75); Equações Diferenciais III (CH: 60); Fundamentos de Matemática Elementar I (CH: 75) e II (CH: 75); Geometria Diferencial (CH: 60); História e Filosofia da Matemática (CH: 60); e Probabilidade e Estatística I (CH: 60).

 A habilitação em Física compreendia as disciplinas: Elementos de Termodinâmica e Teoria Cinética dos Gases I (CH: 45) e II (CH: 45); Mecânica Geral III (CH: 75) e IV (CH: 60); Química III (CH: 45) e IV (CH: 45); Análise Vetorial IV (CH: 45); Equações Diferenciais VI (CH: 60) e VII (CH: 45); Eletricidade e Magnetismo IV (CH: 90) e V (CH: 60); Acústica II (CH: 60); Elementos de Física Matemática (CH: 45); Estrutura da Matéria I (CH: 90) e II (CH: 90); Eletrônica Básica I (CH: 75) e II (CH: 75); Elementos de Ótica (CH: 90); Introdução à Física Nuclear I (CH: 45) e II (CH: 45); Fundamentos da Física (CH: 30); História e Filosofia da Física (CH: 30); Introdução ao Processamento de Dados (CH: 60).

A habilitação em Química foi estruturada com disciplinas específicas da área: Cálculo Fundamental VI (CH: 45) e VII (CH: 45); Física XIII (CH: 45) e XIV (CH: 45); Química Geral III (CH: 75) e IV (CH: 75); Química Inorgânica III (CH: 60) e IV (CH: 60); Química Analítica Qualitativa III (CH: 75) e IV (CH: 75); Físico-Química V (CH: 60) e VI (CH: 60); Química Orgânica V (CH: 60) e VI (CH: 60); Química Analítica Quantitativa III (CH: 75) e IV (CH: 75); Química Biológica IV (CH: 60) e V (CH: 60); Atomística (CH: 60); Cristalografia II (CH: 30); Mineralogia III (CH: 30);  Termodinâmica II (CH: 45); e Análise Instrumental III (CH: 60).

            Nas habilitações, assim como no ciclo comum, as disciplinas podiam ter abordagem teórica, prática ou ambas: Dinamização Curricular II e Metodologia do Ensino de 2º Grau - teóricas; Projetos de Ação Pedagógica - prática; Prática de Ensino na Escola de 2º Grau III, com parte teórica e estágio supervisionado. Atividades em Laboratório e/ou Práticas permaneceram após o ciclo comum nas habilitações em Biologia e Matemática, mas não continuaram naquelas em Física e Química. Na Resolução UERJ nº 457/1976 nota-se a influência de interesses externos na construção da universidade com a orientação dos termos da Resolução nº 30/1974, que obrigava, conforme abordado anteriormente, a criação das licenciaturas em ciências, hierarquicamente. Processos como este não ocorrem passivamente (Nóvoa, 1982 e 1989), mas sim movidos por um “jogo de interesses” (Goodson,  2012, p.67). Em 1980 os cursos de licenciatura plena em Física, Química, Matemática e Ciências Biológicas na UERJ foram restabelecidos com a Deliberação nº 58/1980 (UERJ, 1980).

A Resolução nº 30/1974 do CFE influenciou a desvalorização social das licenciaturas, com a separação destas do bacharelado (Ayres, 2006). Cunha (1977) aponta que o aumento do número de professores não foi satisfatoriamente alcançado, com as instituições resistindo à aceitação daqueles formados apenas no ciclo comum, o que aumentou a procura pelas habilitações (Nascimento, 2012). Além da adesão nacional variável às licenciaturas curtas, a resistência também foi manifestada pela sua efemeridade (Lima-Tavares, 2006), no contexto sócio-histórico na construção do currículo (Goodson, 1997, 2012).

 

Considerações finais

            A implementação do curso de licenciatura em ciências na UERJ pela Resolução nº 457/1976 ocorreu a partir de uma demanda política para a formação  de professores em curto período de tempo, para atender ao aumento do número de matrículas de estudantes nas escolas. A formação na licenciatura curta em ciências ser continuada por habilitação em Biologia, Física, Matemática ou Química. A licenciatura curta sofreu resistências na comunidade acadêmica e científica da época, sinalizadas neste estudo por mudanças estabelecidas na Deliberação nº 49/1979 e a efemeridade do curso.

            Neste estudo buscou-se compreender mudanças e permanências nas habilitações de um curso de licenciatura em Ciências na UERJ nas décadas de 1970-80. Espera-se que os resultados possam subsidiar outros estudos acerca de cursos de licenciatura curta no país.

 

Agradecimentos e Apoio

Os autores agradecem o apoio financeiro da bolsa IC-CNPq,  Prociência da PR2-UERJ e FAPERJ.

 

Referências

ANJOS, M; RÔÇAS, G; PEREIRA. Análise de livre interpretação como uma possibilidade de caminho metodológico. Ensino, Saúde e Ambiente, 12, p.27-39. 201. DOI 10.22409/resa2019.v12i3.a29108.

AYRES, A. C. M. Tensão entre Matrizes: um estudo a partir da Faculdade de Formação de Professores/UERJ. 2006. 183 f. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade Federal Fluminense, Niterói-RJ, 2006.

BRASIL. Resolução nº 30, de 11 de julho de 1974. Fixa os mínimos de conteúdo e duração a observar na organização do curso de licenciatura em Ciências. Documenta, Brasília, v.164, p. 509-11.

CUNHA, L. A. Polivalentes ou Polichinelos? Ciência e Cultura, v. 29, n. 4, 1977.

GOODSON, I. F. Currículo: teoria e história. 13. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. 141p.

GOODSON, I. F. A construção social do Currículo. Lisboa: Educa, 1997. 111 p.

LIMA-TAVARES, D. A. L. Trajetórias da formação docente: o caso da Licenciatura Curta em Ciências das décadas de 1960 e 1970. Dissertação de mestrado, Programa de Pós-graduação em Educação, UFF, Niterói/RJ, 2006, 203 p.

NASCIMENTO, T. R. A criação das licenciaturas curtas no Brasil. Revista HISTEDBR On-line, v. 12, n. 45, p. 340-346, 2012.

NÓVOA, A. Formação de Professores e Profissão Docente. In: NÓVOA, A. (Org.). Os professores e a sua formação. Lisboa: Publicações Dom Quixote, p.13-33, 1992.

NÓVOA, A. Profissão: Professor. Reflexões históricas e sociológicas. Análise Psicológica, 7, 435-456, 1989.

SANTOS, M.C.F.S; SILVA, D. L.S. Ensino de ciências e formação docente: currículo de um curso de licenciatura no Rio de Janeiro. SHIGUNOV, A.; SILVA, A.C.; FORTUNATO, I.(Org.) Coletânea do Congresso Paulista de Ensino de Ciências: discutindo o ensino de ciências nos países ibero-americanos. Itapetininga: Edições Hipótese, 2025, p. 213 - 226.

SUCUPIRA, N. Sobre o exame de suficiência e formação do professor polivalente para o ciclo ginasial. Documenta, n. 31, p. 107-111, 1964.

UERJ. Deliberação nº 049/79. Reestrutura o currículo pleno do curso de Licenciatura em Ciências. 1979.

UERJ. Departamento de Orientação e Supervisão Pedagógica. Processo nº 1642/76. Relatório sobre a criação do curso de licenciatura curta em ciências. UERJ, 1976.

Biografia do Autor

Maria Cristina Ferreira dos Santos, Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Professora Associada do Instituto de Aplicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - ERJ, onde leciona disciplinas na educação básica, na graduação no Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas e na pós-graduação. Docente permanente no Curso de Mestrado Profissional do Programa de Pós-Graduação em Ensino em Educação Básica do Instituto de Aplicação e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências, Ambiente e Sociedade da Faculdade de Formação de Professores da UERJ. Atua como coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ensino em Educação Básica (2020 - 2025) e foi membro do Conselho Consultivo da Pró Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (PR-2) da UERJ (07/2022- 02/2025). Desenvolve pesquisas com ênfase no ensino de Ciências e Biologia, currículo, formação docente, temáticas ambientais e práticas interdisciplinares.

Downloads

Publicado

2026-01-23

Edição

Seção

Resumos expandidos